POESIA EM ANDAMENTO!
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
sexta-feira, 7 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
Título:OS Estranhos"
Título:"Os Estranhos"
Autora:Maria Inêz da Silva Moraes
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
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Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
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Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Autora:Maria Inêz da Silva Moraes
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
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Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
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Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
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Quem me visse no canto do muro, me arrastando com passos lentos e cansados, pensaria que eu estava fazendo algo errado. Eu me esgueirava, cansada como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados,depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas, naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho.Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha.E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.
– Moço o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia,uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou, então, quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
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